Adolfo caminha e Raul Pompéia

Adolfo Caminha, autor de “Bom-crioulo”.

O meio e a raça também são evidenciados no romance Bom-crioulo, de Adolfo Caminha, a primeira obra a tratar a homossexualidade como tema principal. No entanto, com base na perspectiva naturalista, ela é vista como doença e vício. Assim, Amaro seduz o jovem Aleixo, e os dois passam a ter encontros sexuais num quartinho alugado na casa da portuguesa e ex-prostituta d. Carolina.

Nesse romance, Amaro cede ao “vício” porque é negro, portanto, fraco e inferior, segundo a visão naturalista, enquanto Aleixo (branco) é vítima do meio, o ambiente da Marinha:

De qualquer modo [Amaro] estava justificado perante sua consciência, tanto mais quanto havia exemplos ali mesmo a bordo, para não falar em certo oficial de quem se diziam cousas medonhas no tocante à vida particular. Se os brancos faziam, quanto mais os negros! É que nem todos têm força para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana…

  • Raul Pompeia

Raul Pompeia foi outro grande nome do naturalismo brasileiro.

Por fim, O Ateneu, de Raul Pompeia. Nessa obra, o meio é o alvo das críticas desse escritor naturalista. O Ateneu é um colégio interno para rapazes. Ali, segundo o narrador, eles são expostos a uma situação corruptora:

É uma organização imperfeita, aprendizagem de corrupção, [...]. O merecimento não tem cotação, cobrejam as linhas sinuosas da indignidade, aprova-se a espionagem, a adulação, a humilhação, campeia a intriga, a maledicência, a calúnia, oprimem os prediletos do favoritismo, oprimem os maiores, os mais fortes, abundam as seduções perversas, [...].

Naturalismo e realismo

O realismo europeu surgiu na França, em 1856, com a publicação da obra Madame Bovary, de Gustave Flaubert (1821-1880). Já no Brasil, esse estilo foi inaugurado com o livro Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis (1839-1908), o único autor genuinamente realista, pois não aderiu ao naturalismo.

Nas obras desses dois autores, é possível observar uma linguagem objetiva, a crítica à burguesia do século XIX e o antirromantismo, visível na ausência de idealização das personagens. Além disso, essas duas obras apresentam a temática do adultério, recorrente nesse movimento literário.

Apesar de realismo e naturalismo terem tido em comum o olhar objetivo sobre a realidade, eles diferiram-se na análise que o narrador faz de suas personagens. Se no realismo, o foco era a análise psicológica, o entendimento do comportamento humano baseado nos meandros da mente, no naturalismo, o escritor preferiu deixar de lado o plano mental dos personagens para concentrar-se em seus traços instintivos, em suas características biológicas. Assim, os autores naturalistas ampararam-se em teorias científicas da época, enquanto os do realismo, não.

Machado de Assis, portanto, não recorreu ao cientificismo, como fizeram Aluísio Azevedo, Adolfo Caminha e Raul Pompeia. Em Memórias póstumas de Brás Cubas, o narrador colocou em evidência o funcionamento da mente humana para revelar as motivações dos personagens. Não há determinismo, a prevalência do instinto inexiste, o ser humano não é visto como simples animal vítima das leis da natureza. Na obra realista de Machado de Assis, o indivíduo é comandado por interesses individuais e propenso à corrupção, características da natureza humana, sem distinções.

Assim, Brás Cubas, membro da elite burguesa, depois de morrer, resolve escrever suas memórias. Morto, não tem mais nada a perder, não precisa recorrer à hipocrisia. Então, narra a sua infância, cheia de privilégios e sem limites:

Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia — algumas vezes gemendo, — mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um “ai, nhonhô!” ao que eu retorquia: “Cala a boca, besta!”.

Na juventude, vive uma vida de frivolidades e uma aventura amorosa com a interesseira Marcela:

Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos. Meu pai, logo que teve aragem dos onze contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil.

— Desta vez, disse ele, vais para a Europa; vais cursar uma Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem sério e não para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto: — Gatuno, sim senhor; não é outra coisa um filho que me faz isto...

Ao voltar para o Brasil, mostra-se incapaz de trabalhar, mas possui o desejo de ser destaque, de ter visibilidade na sociedade. No entanto, todas as suas tentativas nesse sentido acabam fracassando: “Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto”.

Por fim, tem um relacionamento amoroso com Virgília, uma mulher casada:

Virgília entrou risonha e sossegada. Os tempos tinham levado os sustos e vexames. Que doce que era vê-la chegar, nos primeiros dias, envergonhada e trêmula! Ia de sege, velado o rosto, envolvida numa espécie de mantéu, que lhe disfarçava as ondulações do talhe. Da primeira vez deixou-se cair no canapé, ofegante, escarlate, com os olhos no chão; e, palavra! em nenhuma outra ocasião a achei tão bela, talvez porque nunca me senti mais lisonjeado.

Dessa forma, o romance de Machado de Assis expõe, com muita ironia e olhar crítico, o pensamento e o estilo de vida burgueses, com base na visão de seu grande representante, o defunto autor Brás Cubas. Em nenhum momento, teorias científicas foram utilizadas na composição de suas personagens, de maneira que essa obra não possui características naturalistas.

Notas

|1| Universidade de Caxias do Sul (UCS).

|2| É preciso ressaltar que a histeria feminina, a inferioridade de raça e a patologização do indivíduo homossexual forma perspectivas científicas, do século XIX, que, atualmente, são consideradas equivocadas e ultrapassadas

Adolfo caminha e Raul Pompéia
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This article was written by:

WENDERSON MARTINS Miranda

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