Como se faz um santo

Como se 'faz' um santo

Cecchin afirmou que a canonização é um processo importante para os vivos – e não para os santos.

"O objetivo final da canonização não são os servos de Deus falecidos, mas somente os fiéis, isto é os vivos. São estes os destinatários e os beneficiários dela. Os santos não têm necessidade de ser declarados tais, aliás a canonização, para eles, não acrescenta absolutamente nada. São os fiéis, os necessitados de que a Igreja continue propondo continuamente novos modelos de santidade, capazes de ajudá-los a interpretar, em qualquer condição de vida, a mensagem evangélica", escreveu ele, em texto revisto e ampliado pelo teólogo Fernando Altemeyer Júnior, chefe do departamento de Ciência da Religião da PUC-SP.

"Os santos não têm somente a função de servir de incentivo, de estímulo para os fiéis; contribuem também para fortalecer e acrescentar a união existente entre a Igreja dos falecidos (chamada de triunfante) e a Igreja peregrinante deste mundo. São uma expressão dessa mística união, uma manifestação viva da vitalidade da Igreja, um sinal da ação santificadora do Espírito."

Atualmente, quem cuida do processo é um órgão do Vaticano chamado de Congregação para a Causa dos Santos.

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A Congregação para a Causa dos Santos do Vaticano cuida do processo

"Qualquer pessoa, confraria, associação, diocese ou comunidade pode requerer a abertura de um processo de beatificação. Porém para encaminhar corretamente esse requerimento, deve recorrer a um mandatário, normalmente um eclesiástico, que não faça parte da Congregação para a Causa dos Santos", pontuou Cecchin.

"Esse mandatário, que leva o nome de postulador, é a peça-chave da beatificação. Deve possuir, além de talentos espirituais e intelectuais, três qualidades práticas: um profundo conhecimento da Cúria romana, a arte de reunir fundos, uma extrema tenacidade. Na falta disso, o processo arrisca dormir pelas gavetas num torpor de difícil despertar."

Três requisitos são necessários para a homologação da candidatura: a fama de santidade, o exercício das virtudes cristãs e a ausência de obstáculos insuperáveis contra a canonização.

O aval apara o início do processo de reconhecimento da santidade vem do Vaticano. "Quando alguém morre com fama de santidade ou de milagre, faz-se um estudo inicial em torno da vida dessa pessoa. Geralmente são figuras que têm o túmulo muito visitado e acabam veneradas informalmente pelas pessoas", comenta o canonista Reginaldo Roberto Luiz. "Para começar a causa o bispo local remete ao Vaticano um documento de cerca de duas páginas."

Trata-se de uma breve apresentação do candidato e um pedido de abertura do processo. "Então, depoimentos e investigações começam. No caso da Irmã Dulce, um tribunal ouviu 40 depoimentos, entre leigos e religiosos", completa. "Enquanto isso, uma comissão histórica se encarrega de recolher todos os documentos relativos à vida dessa pessoa."

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Papa Francisco: 'A santidade é o rosto mais bonito da Igreja, o aspecto mais belo'

Um dos processos brasileiros "abertos" no Vaticano é o do jesuíta João Batista Reus (1868-1947). Conforme escreveu Cecchin, para atestar sua "fama de santidade", foram ouvidas 70 pessoas "das mais diversas categorias sociais".

"Uma única dessas pessoas foi interrogada pelo tribunal durante mais de 15 horas", registrou o estudioso.

Os candidatos a santo também têm todos os seus escritos analisados. "O tribunal deve reunir, revisar e estudar (...) tudo o que saiu de sua caneta, lápis ou máquina de escrever, escrito, impresso, publicado ou inédito, incluídas [anotações] particulares e principalmente as cartas, os jornais íntimos, as notas pessoais, agendas...", enumerou Cecchin. Ele exemplificou com o caso do padre francês Charles de Foucauld (1858-1916), hoje reconhecido como beato pela Igreja.

"[Dele] foram recolhidos três metros cúbicos de papéis diversos: o eremita escrevia, sem parar, durante horas, com tinta violeta, menos cara que a preta, para assim poder dar mais esmolas."

Terminada essa etapa, se o bispo julgar que o caso merece seguir adiante, todo o processo é encaminhado a Roma com o pedido de beatificação.

CRÉDITO,MARIANA VEIGA

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Santa Rosa (1233-1251), cujo corpo mumificado fica exposto em igreja na cidade italiana de Viterbo, não teve o processo de canonização concluído

Como se faz um santo

Congregação Romana para a Causa dos Santos, de posse de todos esses dossiês, não raro compostos de várias caixas, dará prosseguimento imediato? Não é bem assim. Se há um lugar em que 'pressa é sinônimo de imperfeição' é bem na cúria romana", analisou Cecchin.

Dois religiosos – que juram segredo e não se conhecem entre si – são nomeados para ler todo o dossiê e darem seu parecer. Se suas conclusões forem discrepantes, um terceiro leitor é nomeado.

O processo ou é arquivado ou segue adiante – no caso, se os pareceres forem favoráveis.

O Vaticano nomeia cinco sacerdotes para seguir adiante nos trabalhos. "Este tribunal será assistido por um notário e, para o exame dos milagres, de um ou de vários peritos locais, médicos ou cirurgiões, designados especialmente para isso", afirmou o estudioso. "Finalmente, o tribunal será provido de um ministério público, sob a forma de dois promotores-adjuntos e devidamente munidos de interrogatórios aos quais deverão submeter as testemunhas."

O processo costuma ser longo. "É rigorosíssimo, passa por diversas comissões - que produzem relatórios que costumam passar de 2 mil páginas", afirma Luiz. Quando o primeiro milagre é reconhecido pela Igreja, a personalidade passa a ser reconhecida como beata - ou bem-aventurada. Sua veneração passa a ser permitida. Só com o segundo milagre, a canonização ocorre.

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This article was written by:

WENDERSON MARTINS Miranda

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