Culpa e narcisismo tragédia moderna

Introdução

Os conceitos de culpa e narcisismo sustentam lugar privilegiado na teoria psicanalítica e, nos dias atuais, têm sido tema de discussão principalmente no que se refere à importância na relação com o tema da alteridade. Discursos sobre a sociedade pós-moderna apontam para um mal-estar que se revela a partir de uma cultura narcisista (Lasch, 1983) e sua incidência nas subjetividades. Seja no que se refere à formação psíquica contemporânea orientada pelo narcisismo (Roudinesco, 2006), ou ao mal-estar da psicanálise com os imperativos da atualidade (Birman, 2005), ou ao consumismo como nova ordem em uma moral do espetáculo (Costa, 2005). E, até mesmo, a destituição do sujeito, já que o "sujeito" é o subjectus, o que é submetido, e nos dias atuais, não há o que sustente sua submissão (Dufour, 2005). Tais posicionamentos resultam em uma fragilidade do sujeito no contato com o outro, corroborando para o incremento de uma sociedade perversa.

Assim, pretendemos neste texto refletir sobre uma possível articulação entre narcisismo e culpa no contexto da sociedade pós-moderna1, considerando a culpa em duas vertentes e o narcisismo em sua dupla tipologia. Defendemos a tese de que o texto freudiano apresenta uma culpa promotora do laço social e uma ligada ao mal-estar, mais além do princípio de prazer. E no caso do narcisismo, é preciso estar atento para a distinção entre eu ideal - narcisismo primário - e ideal do eu - narcisismo secundário. Partiremos de dois pontos de vista a princípio contraditórios, mas que se mesclam e se desvelam nos novos arranjos sociais presentes na pós-modernidade.

Em um primeiro momento, o ponto de vista de que o declínio da culpa na sua vertente civilizatória, ou seja, aquela que promove o laço social como valor presente nas relações humanas, corresponde na contemporaneidade à configuração de uma organização social perversa e narcísica. Assim, partiremos da ideia de que a sociedade atual apresenta uma face perversa, buscando, pois, entender as cenas e enlaçamentos perversos da sociedade pós-moderna.

Em um segundo momento, trabalharemos com a ideia contraditória presente nesse mesmo conceito. Dessa vez, não mais trataremos do declínio da culpa, mas, da ideia de uma exacerbação desse sentimento em relação ao próprio sujeito. Enquanto a ausência da culpa aponta para uma desconsideração da dimensão da alteridade, o seu excesso estaria ligado ao narcisismo primário, que tem como consequência o mesmo desvanecimento da alteridade. Assim, o sujeito é desculpabilizado na sua relação com o outro e culpabilizado na sua relação consigo mesmo, por não responder a todos os signos de sucesso que elevam sua majestade - o eu à condição de eu ideal.

Estamos diante de uma perspectiva trágica no que se refere à relação eu-outro, pois um dos elementos definidores da tragédia é a ausência de saída, a inevitabilidade do acontecimento. O mundo pós-moderno parece reduzir inevitavelmente o campo da relação alteritária por duas vias: ou o outro é reduzido, porque ocorre uma diminuição da culpa do eu em relação ao outro, ou é diminuído, porque vivemos uma exacerbação do eu ideal fechado em sua magnitude de rei. Mas a tragédia moderna é idêntica à clássica?

Versa (2005), reconstruindo o raciocínio de Goethe, revela que a tragédia moderna se difere da grega. A tragédia clássica era regida pelo destino (sollen) e necessidade, enquanto a moderna seria regida pela liberdade e vontade (wollen). Essa mudança de sollen para wollen anuncia uma perda no potencial de tragicidade. Segundo Carlson (1997), "graças ao sollen, a tragédia se fez grande e poderosa; graças à caprichosa wollen, ela se fez fraca e insignificante, e seu poder dissolveu-se na indulgência e no capricho" (p. 175). Nesse sentido, a modalidade de tragédia que se impõe na relação entre o eu e o outro no mundo pós-moderno e anuncia o enfraquecimento do campo do outro pode ser considerada como caprichosa, ou seja, pode-se encontrar uma saída.

Assim, nosso objetivo é apresentar duas posições aparentemente contraditórias em relação à culpa; a desculpabilização em relação ao outro e a culpabilização em relação ao eu ideal, mas que apresentam o mesmo resultado, a saber: o enfraquecimento da relação com o campo alteritário.

 

Culpa e narcisismo tragédia moderna
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This article was written by:

WENDERSON MARTINS Miranda

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