Os suplementos de jornais e o surgimento das editoras (1929 - 1959)

Em setembro de 1929, o jornal A Gazeta cria um suplemento de quadrinhos no formato tabloide, baseado nos suplementos dominicais de quadrinhos americanos. No mês seguinte, a Casa Editorial Vecchi (uma editora de origem italiana) lançou a revista Mundo Infantil. O sucesso dos suplementos se deu em 1934 com a criação do Suplemento Infantil de Adolfo Aizen. Aizen trabalhava nos jornais O Globo e nas revistas O Malho e O Tico-Tico. Após viajar para os Estados Unidos, conheceu os suplementos de quadrinhos e, ao voltar ao Brasil, encontrou Arroxelas Galvão, representante da King Features Syndicate. Galvão tentava, desde 1932, vender tiras para os jornais brasileiros; a exceção foi o jornal Diário de Notícias, que publicava as tiras de Popeye (que foi rebatizado como Brocoió). Aizen negociou com Galvão e assim foi responsável por publicar pela primeira vez as tiras de aventura de Flash Gordon. Publicado inicialmente pelo jornal A Nação (após ser recusado por Roberto Marinho, do jornal O Globo, onde Aizen trabalhava; na época, Marinho alegou que o custo dos suplementos de quadrinhos seria muito alto), a primeira edição foi lançada em março do mesmo ano e teve capa de J. Carlos. Assim como O Tico-Tico, o Suplemento Infantil misturava tiras estrangeiras e brasileiras, desenhadas por artistas como Monteiro Filho, que ilustrou Os exploradores da Atlântida, ou As Aventuras de Roberto Sorocaba, auxiliado pela esposa Maria e roteirizada por Oswaldo da Silveira.

Sendo um judeu nascido na Rússia, Aizen não poderia ter uma empresa no Brasil - segundo a lei vigente na época, apenas nascidos em solo brasileiro poderiam ter tal privilégio. O jornalista forjou uma certidão de nascimento que declarava ser baiano, pois havia morado na Bahia durante a adolescência. Em 1935, o jornal Correio Universal, do casal Maurício Ferraz de Abreu e Helena Ferraz de Abreu, começou a publicação de histórias em quadrinhos nacionais, como as de Hélio do Soveral ("O Mistério da Casa de Campo"), Donatelo Grieco, Ayres Nascimento, Aytlton Flores e Luiz Megulhão.

Em 1936, Aizen resolveu reunir as páginas do primeiro arco de Flash Gordon, "Flash Gordon no Planeta Mongo", em um álbum de luxo no formato horizontal. O álbum vendeu bastante, chegando ao ponto de esgotar a tiragem de 15 mil exemplares. No mesmo ano, Carlos Arthur Thiré publicou nas páginas do Suplemento Juvenil as séries O Gavião do Riff, Raffles, o ladrão elegante (inspirado no personagem de mesmo nome de Ernest William Hornung) e Três Legionários de Sorte, também publicada em O Tico-Tico. Na década de 1940, publicou a tira Aí, Mocinho! na revista Vâmos Ler do jornal A Noite. Em 1938, Fernando Dias da Silva ganhou um concurso do Suplemento Juvenil e publicou a tira "O enigma das pedras vermelhas".

Em 1937, o tabloide criado pelo casal Ferraz publicou pela primeira vez no país as tiras de O Fantasma, de Lee Falk, com traduções da própria Helena Ferraz de Abreu.

Roberto Marinho entrou em contato com Aizen (com quem não falava há três anos) e lhe propôs uma parceria: ambos distribuiriam suplementos de quadrinhos (impressos nas gráficas do O Globo) em vários jornais do país. Aizen recusou a ideia e, em junho do mesmo ano, Marinho lançou O Globo Juvenil, suplemento dirigido por Djalma Sampaio, auxiliado por Antonio Callado e Nelson Rodrigues. No mesmo ano, Francisco Acquarone, mais conhecido por seus trabalhos de pintura e por livros de história da arte, quadrinizou os romances Os Primeiros Homens na Lua, de H. G. Wells, e As Minas de Prata, de José de Alencar.

Aizen criou a revista Mírim; uma novidade da revista foi a utilização do formato comic book ou meio-tabloide. No mesmo ano, a revista A Gazetinha começou a publicar o arco de história de A Garra Cinzenta, de Francisco Armond e Renato Silva, uma série com forte influência dos pulps de mistério, terror e ficção científica. Na mesma época, Renato Silva havia iniciado sua carreira nas histórias em quadrinhos, publicando nas páginas do Suplemento Juvenil, ilustrando uma história de um personagem da literatura pulp, o detetive Nick Carter. O personagem principal é um vilão perseguido pelos inspetores de polícia Higgins e Miller. A Garra Cinzenta foi publicada até 1939, totalizando 100 páginas, e posteriormente foi publicada no mercado franco-belga, na revista Le Moustique, com o título La Grife Grise; na época, franceses e belgas achavam que a história era de origem mexicana. Anos mais tarde, especulou-se que Helena de Ferraz fosse a verdadeira identidade de Francisco Armond, autor de A Garra Cinzenta. Helena e o marido às vezes assinaram no jornal usando o pseudônimo Álvaro Armando. Arnaldo Ferraz, o filho do casal, garante que a mãe nunca roteirizou histórias em quadrinhos, apenas traduziu as primeiras tiras do Fantasma; Renato Silva ficaria mais conhecido pelos cursos de desenho publicados na série de livros A Arte de Desenhar.

No ano seguinte, o Correio Universal publicou outras histórias ilustradas por ele: Aladim, que acabou batizando um suplemento do jornal, João Tymbira Em Redor do Brasil e uma quadrinização de O Guarani, de José de Alencar; contudo, o jornal seria cancelado logo em seguida. Ainda em 1938, Nelson Rodrigues roteirizou as quadrinizações de O Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde, publicado em 1938, e O Mágico de Oz, de L. Frank Baum, em 1941, ambos desenhados por Alceu Penna. De 18 de novembro de 1938 a janeiro de 1940, o jornal O Globo teve uma seção de duas páginas chamada O Globinho, publicada todas às sextas-feiras, contendo quadrinhos, testes e artigos; entre os quadrinhos publicados estavam “As grandes vidas” de Premiani e “O galeão perdido” de Hélio Queiroz.

No Ceará, Rubens de Azevedo publicou no jornal O Estado as tiras "Sacha: o detetive particular" (1938) e "Uma viagem a Saturno" (1940).

A Gazetinha publicaria várias tiras de autores brasileiros: Nino Borges (Piolim, Bolinha e Bolonha) e Belmonte (Paulino e Balbina). Nas páginas da Gazetinha, entre 1936 e 1939, o desenhista Messias de Mello criou diversos personagens, entre eles Pão Duro, Tutu, Titi e Totó, Gibimba e Audaz, o Demolidor. Além de criar histórias em quadrinhos, ilustrou quadrinizações de clássicos da literatura, como Os Três Mosqueteiros, O Máscara de Ferro, Robinson Crusoe, Os Miseráveis e O Conde de Monte Cristo. Ao lado do escritor Armando Brussolo, realizou, de 1936 a 1939, diversas histórias em quadrinhos serializadas, como Capitão Blood, Sherlock Holmes, o Homem Elétrico e A conquista das esmeraldas, na qual narrou a saga do bandeirante Fernão Dias. Também ilustrou O Raio da Morte, Bascomb – o Terror de Ferney e À Roda da Lua, baseada nos romances Da Terra à Lua (1865) e sua sequência À Roda Da Lua (1869) de Júlio Verne, O enigma do espectro de James Hull (roteirizada por Francisco Armond), entre outros trabalhos feitos para esse suplemento.

Em 1939, O Globo lançou O Gibi para concorrer com Mírim; no ano seguinte, Aizen publicou O Lobinho (para evitar que Marinho tivesse uma revista chamada O Globinho) no jornal A Noite (jornal que fora fundado por Irineu Marinho, pai de Roberto Marinho); na revista foi utilizado o formato standard. Aizen não gostava do nome escolhido pelo concorrente (que era um termo pejorativo para garotos negros); o nome já havia sido usado por J. Carlos em personagem publicado nas páginas de O Tico-Tico (na época, o personagem era grafado como Giby) em 1906, e com o tempo, Gibi passou a ser usado como sinônimo de revistas em quadrinhos (algo parecido aconteceu na Espanha, onde o termo tebeo surgiu do nome da revista TBO). A revista Mírim deu origem à "Biblioteca Mirim", no formato 9 x 11 cm, uma coleção de 31 pequenos livros ilustrados (também chamados de "tijolinhos"), inspirados nos chamados Big Little Books americanos. O jornal também publicava os gibis de Ciranda, cuja principal série era "Histórias do Velho Lobo".

Em 1942, O Globo criou o suplemento O Gibi; mais tarde, as revistas em quadrinhos de Aizen se tornaram mais populares com a inclusão de outros personagens, como o Mickey Mouse, o Pato Donald e o Super-Homem. O Gibi tornou-se um sucesso nas décadas seguintes, quando a empresa de Aizen se transformou em uma das editoras de quadrinhos mais respeitáveis do Brasil.

Durante a década de 1950, a influência dos suplementos e das editoras se expandiu, com o surgimento de novas publicações, incluindo a revista O Pato Donald e O Fantasma. O cenário dos quadrinhos no Brasil começou a se diversificar, com a introdução de novos estilos e narrativas, e a cena dos quadrinhos brasileiros se consolidou.

Os suplementos de jornais e o surgimento das editoras (1929 - 1959)
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Rogerleks Frasson

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