Período pré-dinástico do Egito

Nos períodos pré-dinástico e dinástico, o clima do Egito, e do Saara como um todo, sofreu repentinas variações que causaram períodos de extrema seca e desertificação e períodos de clima favorável e úmido: em fases úmidas o Saara era dominado por savana rica em fauna (aves e mamíferos) e flora.[17][18] A caça era muito importante entre os egípcios, pois fornecia carne.[19] Os primeiros sinais de domesticação animal são do Deserto Ocidental e datam de 8 800-6 800 a.C.: eram criados com base no modelo de pastoreio africano, no qual fornecem leite e sangue, mas não carne.[20] Cerca de 5 500 a.C., pequenos grupos que viviam no vale evoluíram para aglomerados culturais complexos caracterizados por amplo domínio da agricultura (os vestígios mais antigos desta foram achados em Faium[21]), pecuária, manufatura de objetos e cerâmica e um primitivo comércio: Faium (5 400-4 400 a.C.) desenvolveu pleno domínio em tecelagem;[22][23] Merinde (5 000-4 100 a.C.) construiu os primeiros túmulos egípcios conhecidos, situados no interior do sítio, e talvez desenvolveu práticas rituais;[24][25][26] Omari (4 600-4 400 a.C.) fez os mais antigos artefatos em cobre do Egito;[27] e Badari (4 400-4 000 a.C.) produziu os primeiros exemplos de faiança e vidro à base de esteatita.[28][29][30]
Maadi-Buto (3 800-3 200 a.C.) produziu os primeiros cemitérios bem definidos[31] e intensificou o comércio: importava produtos do Oriente Próximo (madeira de cedro,[32] nódulos de sílex, cerâmica, ferramentas líticas, resinas, óleos, vinho, cobre, basalto), Alto Egito (pentes, cerâmica, marfim, paletas cosméticas, cabeças de clava) e Deserto Oriental (malaquita, manganês, pérolas, conchas, cornalina); e exportava cerâmica, conchas e cereais para o Oriente, cobre, basalto e sílex para o Alto Egito.[33] Sítios como Saís e Buto tornaram-se centros de propagação cultural.[34] Nacada (4 000-3 000 a.C.) foi caracterizada pelo surgimento de elites regionais mercantis centradas em grandes centros de poder (Nacada, Hieracômpolis, Gebeleim, Abadia, Abidos) que evoluíram para Estados regionais belicosos que disputaram o poder, terras mais férteis e controle das rotas comerciais.[35][36] [37] Possivelmente estes Estados delinearam a divisão administrativa egípcia conhecida como nomos.[38][39][40] Nos 1 000 anos de existência da cultura, suas cidades variaram em tamanho e poder: em Nacada I (4 000-3 500 a.C.) a maior era Nacada; em Nacada II (3 500-3 200 a.C.) era Hieracômpolis; em Nacada III (3 200-3 000 a.C.) eram Abidos e Tinis.[41][42][43][44][45] Tinham seus cemitérios, onde as elites eram sepultadas com rico espólio.[46][47][48] No fim de Nacada II e em Nacada III há as primeiras evidências de chefes regionais e, depois, os primeiros faraós.[21][49]
Período pré-dinástico do Egito

Nacada fabricou uma gama diversificada de bens materiais, reflexo do crescente poder e riqueza da elite: vasos (em basalto, marfim, cobre, osso e cerâmica), adornos pessoais (em osso, lápis-lazúli, conchas, faiança, madeira, ouro, prata e cobre), paletas antropo e zoomórficas (em grauvaque e ardósia), esteatita vítrea, figurinhas zoo e antropomórficas (em terracota e marfim), cabeças de clava discoides e depois peroides;[46][50] e esferas de ferro meteorítico, o mais antigo uso de ferro no mundo;[51][52][53] em Nacada I, há os primeiros exemplos de habitações feitas com tijolos.[54][55][56][57] Durante Nacada, há transformações socioeconômicas importantes: intensa importação (obsidiana, cobre, vasos, lápis-lazúli, marfim, ébano, incenso, pele de gatos selvagens, óleos, pedras e conchas) e exportação (alabastro, contas de ouro, faiança, lâminas, amuletos de "cabeças bovídeas");[58][59][48][60][61] aparecimento de costumes religiosos (uso de estelas e sarcófagos) e alguns deuses do panteão (Hórus, Bate, Seti, Necbete e Mim);[62] os hieróglifos (quiçá com base na escrita mesopotâmica[63]);[64][65] arte e iconografia, ambas representadas em paletas;[66] acentuada elevação da produção agrícola devido maior número de áreas cultivadas e melhoria das habilidades empregadas.[67] Muitos sítios deltaicos dedicaram-se só ao comércio com o Oriente, enquanto nômades do Deserto Oriental, porventura devido à degradação das condições ambientais locais, foram ativos mediadores do comércio.[68][69]

Um termo contextual (dinastia 0) é usado para agrupar os reis conhecidos de Nacada IIIb-IIIc, embora não formaram uma dinastia;[49] apesar de não totalmente aceito, o termo dinastia 00 por vezes é usado para distinguir reis atestados entre Nacada IIc- IIIa2. [a][21] Até Nacada IIIa2, há em Nacada (Cemitério T), Gebeleim, Abidos (Cemitério U), Hieracômpolis (T100 e 11), Custul (L24) e Seiala (137.1) túmulos quiçá atribuíveis a chefes locais que emergiam do seio das famílias da elite.[70] Cerâmicas incisas, paletas (sobretudo a Paleta Líbia) e um grafite nos Colossos de Copto forneceram os nomes de possíveis reis locais que reinaram até a ascensão dos reis tinitas: Órix, Concha, Peixe, Elefante, Touro, Boi I (?) Cegonha, Canídeo, Boi II, Escorpião I, Falcão I, Mim + planta [...] Falcão II, Leão, Falcão Duplo (e sereques no Sinai e delta) [...] Iri-Hor, Cá, Escorpião II, Narmer; talvez houve dois Touros, o dos colossos (Touro I) e outro da Paleta do Touro (Touro II);[71] Escorpião I, cuja tumba (U-j, Abidos) tinha muitos bens e os primeiros hieróglifos sabidos, foi associado a um grafite de Gebel Tjauti, no deserto entre Abidos e Nacada, que exibe possível vitória sobre outro rei.[72] Há também outros achados com sereques: Hate-Hor (túmulo 1702 em Tarcã), Ni-Hor (Tora e Tarcã), Hedju-Hor (delta Oriental e Tora) e Crocodilo (túmulos 315, 414 e 1549 de Tarcã), que acaso foi usurpador no tempo de Narmer.[73] Alguns dos primeiros faraós tiveram seus jazigos detectados: Iri-Hor (túmulo B1-B2, Abidos), Cá (túmulo B7-B9, Abidos), Escorpião II (quem sabe 4ª camada do túmulo B50 em Abidos ou túmulo 1 do local 6 em Hieracômpolis) e Narmer (túmulo B17-B18, Abidos).[74]

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This article was written by:

Rogerleks Frasson

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